
Quando o presidente Getúlio Vargas disse no ano de 1945 a famosa frase “Vale quanto pesa” para justificar sua política de reajustamento do preço do boi, acabou contribuindo para mudar o curso da história da raça gir em terras brasileiras. Importada oficialmente da Índia a partir de 1911, onde era utilizada para produção de leite, a raça foi utilizada inicialmente no Brasil para a produção de carne e, com essa aptidão, viveu grande apogeu na primeira metade do século 20.
Muitos criadores fizeram fortuna vendendo animais gir por altas cifras.
Alguns acontecimentos internacionais contribuíram para essa supervalorização. Beneficiado pela nova ordem econômica imposta pela Primeira Grande Guerra, o Brasil assumiu o posto de grande exportador de carne bovina. Como tinha melhor rendimento que as outras raças existentes no país, o gir passou a ser valorizado pelos frigoríficos. A indústria pagava mais pela carne desse zebuíno.
Febre aftosa – Mas foi com o final da Segunda Grande Guerra que os giristas, como são chamados até hoje os criadores da raça, viram seus animais atingirem preços estratosféricos. Em 1921, o governo brasileiro proibiu as importações de bovinos da Índia devido ao surto de febre aftosa detectado no rebanho paulista.
A doença teria sido originada de animais importados. Os maiores beneficiados com a medida foram os criadores do Triângulo Mineiro, principalmente da cidade de Uberaba (até hoje considerada a capital do zebu). Nas fazendas da região, estavam os últimos exemplares importados da Índia, sendo os da raça gir os mais valorizados. Outra cidade cuja economia foi fortemente influenciada pela raça foi Franca, interior de São Paulo. Durante duas décadas, o município ficou conhecido como a “Meca do Gir”.
Entre os animais de maior valor mercadológico estavam aqueles com registro genealógico. O primeiro zebuíno gir a ser registrado, fato ocorrido em 1938, foi Martelo, pertencente ao criador Rodolfo Machado Borges. Até 1969, o gir liderava o ranking de raças zebuínas registradas pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ).
Tudo levava a crer que o gir tinha se transformado no Brasil em uma excelente raça produtora de carne, contrariando sua aptidão original, pois na Índia até hoje ela é utilizada para produção de leite.
Ela também foi bastante utilizada em cruzamentos dando origem a outras raças, como a zebuína indubrasil e a sintética girolando. Daí veio a máxima getuliana de “vale mais morto do que vivo” e o primeiro apogeu do gir chegava ao fim diante da queda vertiginosa dos preços dos bovinos. A consolidação do nelore na década de 70 como a grande raça produtora de carne, posto que detém até hoje, sepultou qualquer chance do gir reviver seus tempos áureos como a raça preferida pelos frigoríficos.
Leite – Para sobreviver à nova realidade da pecuária nacional, muitos criadores viram na produção de leite (antes utilizada apenas para consumo interno da fazenda) uma maneira de permanecer na atividade.
“Essas propriedades, em geral, ficavam próximas de laticínios e passaram a fornecer leite para a indústria. Eram fazendas em que a seleção de animais para produção de leite foi mantida, mesmo durante o período de utilização do gir como uma raça de corte”, explica o criador Sílvio Queiroz, que preside a Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL).
Foi o que ocorreu na fazenda da família do produtor rural mineiro João Machado Prata Júnior. Há mais de um século, o avô, Dagoberto Prata, apaixonou-se pelo gir e sua grande capacidade de produzir carne. Tirar leite das vacas era uma atividade secundária.
Seguindo os passos do avô, João Machado começou a selecionar na fazenda Aprazível - localizada no município mineiro de Água Comprida- animais com características r...