
O sonho de ingressar em um curso superior tem se tornado realidade para muitos jovens, filhos de agricultores. No entanto, o que deveria ser o significado de uma revolução educacional no campo, acaba na maioria das vezes, tornando-se uma porta para o êxodo rural. Um dos motivos seria a falta de estímulo ao empreendedorismo, principalmente nos cursos voltados ao agronegócio, cujas grades curriculares, segundo muitos baicharéis, estão voltadas à formação de ‘empregados de grandes empresas’ e não empresários rurais.
No entanto, a vocação e o amor pela terra têm gerado um movimento de volta às origens, pois muitos sabem que, embora “doutores”, isto não significa a garantia de um emprego bem sucedido. Assim, há profissionais retornando ao berço familiar e transformando a propriedade rural numa verdadeira empresa.
De acordo com o professor e coordenador do estágio curricular do curso de Agronomia da Universidade de Passo Fundo, UPF, no Rio Grande do Sul, João Luiz Reichert, a agricultura brasileira passa por uma revolução que é a antítese de uma frase do passado: se você não estudar, ficará na roça.
“Atualmente, se você quiser trabalhar na lavoura terá que estudar. Isto mostra que as mudanças estão começando nas faculdades de Agronomia, em que muitos filhos de agricultores estão buscando uma formação superior visando a sucessão familiar nas propriedades”, revela Reichert.
“O agrônomo produtor precisa estar constantemente atualizado sobre novas técnicas de produção e gestão da propriedade, o que normalmente não se vê na grande maioria destes profissionais, muitas vezes pelo comodismo ou pelos custos da atualização”, diz.
Apoio – Em 2006, Márcio José Nohatto se formou em agronomia e retornou a propriedade da família em Campos Novos, Santa Catarina, onde junto com o pai passou a tomar conta de 320 hectares cultivados com milho, soja e feijão.
“Fiz Agronomia porque sou filho de agricultores e gosto da atividade. Não me vejo fazendo outra coisa”, comenta Nohatto, de 26 anos de idade.
Com a perda do pai, no início de 2009, caiu sobre seus ombros a responsabilidade de tocar a propriedade, contando com o apoio da mãe e do irmão Leandro, de 18 anos.
“Meu pai sempre quis que eu trabalhasse em casa, então assumi os negócios. No começo não foi fácil, era muita responsabilidade, mas como eu e meu pai sempre conversávamos muito, buscando aliar a teoria à prática, ficou mais fácil e devagarzinho, com o dia a dia, fui aprendendo”, explica o jovem produtor.
“Quando a situação aperta, a gente pede ajuda para a assistência técnica da cooperativa, das empresas da área e outros colegas”, complementa o irmão Leandro, que atualmente cursa Administração de Empresas com o objetivo de ficar no campo e ajudar nos negócios.
Segundo os irmãos Nohatto, independente da área, o investimento no campo é mais rentável do que trabalhar de empregado.
“É muito mais vantajoso trabalhar no que é da gente, pois tudo o que se faz, soma para benefício de nossa família”, ressalta Márcio Nohatto, revelando que apenas com o controle individual por talhão que passou a fazer, já aumentou em 10% a rentabilidade, e que mesmo em uma pequena propriedade, há a possibilidade de diversificar as atividades e aumentar a rentabilidade.
Por isso, segundo ele, durante a faculdade é importante que o aluno estude e se profissionalize nas áreas em que a propriedade atua ou em áreas potenciais que possam ser exploradas.
“Tem que direcionar os estudos para o que a propriedade necessita, pois se ficar só na teoria, você fracassa, e se ficar só na prática, fracassa também. Por isso, é importante aliar os dois conhecimentos”, orienta Nohatto, que ainda critica o fato de que, hoje, as universidades formam os a...